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despedida

Tudo que tem um início precisa ter um fim e, com esse blog não poderia ser diferente.
Este é o último post do Febre Alta.
Agradeço a todos que me acompanharam, com ou sem comentários.
Um grande abraço a todos...
Escrito por Giu às 18h41
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Espaço

Engraçado como certas palavras tornam-se emblemáticas de tempos em tempos. É como se, com aquele pequeno conjunto de letras, fosse possível exprimir e explicar toda uma série de eventos, dando a eles sentido e, de certa maneira, legando-os à posteridade, seja como herança, seja como dívida, ou mesmo como maldição.
Os anos 70 passaram à frente a bandeira da liberdade, a individualidade foi o que ficou dos 80 e, finalmente, os anos 90 nos deixaram a atitude(insight do autor, aberto a contestações). Tudo leva a crer que os anos 00 desse novo século devem passar adiante a questão da privacidade. Depois de anos de “lutas” para garantir o direito a se fazer “o que” se quer, “com quem” se quer e finalmente “da maneira” que se quer, parece que o próximo passo é garantir o fundamental direito a se fazer o que for justamente “onde” se quer.
De certa maneira, pode parecer um pouco contrastante falar sobre a idéia de privacidade justamente num momento em que as pessoas parecem procurar em todo lugar e a todo instante o máximo de exposição: Orkuts, blogs, fotologs, reality shows, programas de auditório e revistas que tendem a explorar ao máximo a vida privada daqueles que se submetem a tomar parte daquilo.
Além disso, os meios de comunicação multiplicaram-se, expandiram-se e inseriram-se de tal modo no cotidiano de cada um de modo a se poder encontrar, falar, conversar, ver, escutar quem quer que seja e onde quer que se encontre.
Ademais, não custa lembrar que a Internet, principal meio de comunicação dos dias de hoje, pode ser monitorada a todo momento pelos principais órgãos de inteligência da maioria dos países conhecidos como desenvolvidos.
Assim sendo, poderia mesmo se chegar a considerar uma contradição pensar numa palavra como privacidade como paradigmática. Alguns certamente o considerarão uma tolice sem tamanho, além daqueles capazes de decretar a insanidade de alguém que possa sugerir tal idéia.
Entretanto, vale a pena lembrar do significado dessa palavra, aparentemente simples, mas que volta e meia parece invocar uma enormidade de interpretações. Privacidade remete sempre àquilo que, sendo de alguém, diz respeito somente a esse alguém. Por que os paparazzi costumam se tornar o inferno de algumas celebridades? Não é simplesmente pelo fato de fotografá-las em público, mas justamente por fazê-lo naquele momento requerido pela pessoa para torná-lo seu: um jantar com o namorado, um passeio no parque com o filho, uma ida ao motel com a amante, uma carreira cheirada no banheiro de uma boate.
Certamente muitos irão argumentar que é o preço a ser pago por aqueles que alcançaram o status de uma celebridade. Não deixa de ser um argumento válido. Mas também é preciso lembrar que viver num mundo onde se é livre para fazer o que se quer, com quem se quer e da maneira que se quer de nada irá adiantar se é preciso esconderijos para exercer tal liberdade. É preciso dar o passo adiante.
Escrito por Giu às 22h16
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a normal idade

Da última vez, abordei a questão da saúde mental, para expor alguns pontos que parecem sempre ficar em dúvida quando se quer falar sobre o assunto. Tentei ao máximo dissimular o caráter didático da exposição pois, apesar de ser um assunto pelo qual a maioria das pessoas se interessa, não há coisa mais entediante que bula de farmácia.
Apesar disso, ao reler o texto, depois de publicado, eu mesmo fiquei com uma certa dúvida sobre meu sucesso na empreitada, o que a ausência de comentários a respeito talvez tenha servido apenas para confirmar o que já era suspeito.
Embora não tenha o hábito, vou retomar onde parei, pois me parece que ainda restaram algumas coisas a serem ditas. Minha principal preocupação vem justamente do lugar onde a coisa toda faz eco, já que, de onde ela grita, o barulho é bem claro e definido, não deixando dúvida a respeito de sua origem. A despeito de toda pretensa evolução científica do último século, principalmente aquelas que foram possíveis devido aos avanços tecnológicos, pouco se pôde fazer a respeito da loucura.
Mesmo assim, a impressão que se tem é justamente contrária: o caos generalizado que se tornou a ordem social em nosso país, as explosões de conflitos raciais /religiosos que vêm aumentando em proporções geométricas a cada dia no mundo, para não mencionar a completa insensibilidade do ser humano para com o sofrimento alheio, tudo isso é, em geral, observado única e exclusivamente de maneira jurídica, sob uma pretensa perspectiva sócio-histórica.
Contudo, mesmo sendo aberrante a obviedade do caráter insano de toda esse show de horrores ao qual nos encontramos terminantemente expostos a cada dia em que se levanta da cama – basta abrir os olhos – é à normalização que se tende mais e mais, como se fosse necessário estipular uma fronteira e barrar, a todo custo, qualquer empecilho, qualquer possível ameaça, à nossa tão segura, confortável, pacífica e, por que não, entediante tranqüilidade.
Ainda hoje, conversando com um cliente-amigo, me lembrei de fato ocorrido há alguns anos, quando fixei residência em uma pequena cidade do sul de Minas Gerais chamada São Thomé das Letras. A empreitada, que pode ser resumida basicamente como uma tentativa de tocar um negócio próprio em sociedade, rendeu algumas boas histórias, entre elas a que segue adiante. A cidade era localizada no cume de um morro e, segundo alguns, a altitude favorecia o aparecimento de crises hipertensivas nos habitantes. O atendimento médico era providenciado unicamente por um posto de pronto-atendimento do SUS e, aos pacientes que se dirigiam ao hospital com o problema, a receita era usualmente uma só: Gardenal. Assim, não era raro entrar nas casas de família da cidade e verificar, em cima das geladeiras, junto com um e outro frasco de Novalgina ou Aspirina, a caixinha do barbitúrico, receitado indiscriminadamente a todos que apresentavam “pressão alta”.
Depois disso, foi fácil entender a tranqüilidade dos moradores da cidade para lidar com todo o tipo de lunáticos que costumava freqüentar o local durante cada feriado.
Coincidentemente, não há muito tempo, li em uma coluna da Folha de São Paulo que circulou, à boca pequena, um pré-projeto de lei cujo objetivo era colocar, em caráter experimental, pequenas doses de antidepressivos (ou seriam anti-psicóticos), na rede de distribuição de água da cidade de São Paulo. Volto a frisar que isso não chegou a mim por e-mail ou coisa parecida, e que o projeto foi, obviamente, engavetado.
Mas não deixa de ser curioso notar o bizarro da situação, nem tanto por parecer uma idéia para lá de tresloucada mas, justamente, por haver nela qualquer coisa de comum e até mesmo aceitável.
Escrito por Giu às 22h20
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a doença

Semana passada, uma conhecida me fez uma pergunta inspiradora, principalmente por tudo o que pode ter querido esconder ao mesmo tempo que tentava mostrar. A pergunta, em toda sua ingenuidade, não poderia ser mais reveladora e se colocou nos seguintes termos: “Giu, doença psicológica é hereditária?”
Como bem se sabe, há todo um estigma no que se refere à questão da doença mental. Todo o avanço científico das últimas décadas não foi suficiente para dissipar a nuvem de misticismo que cerca os assim chamados “males da alma”. Desde seu diagnóstico, passando por qualquer tipo de tratamento para se chegar a uma improvável cura, até o convívio inevitável com aqueles que sofrem, há em quase toda sociedade um certo assombro, que não faz diminuir de acordo com o grau de instrução e possível preparo para lidar com o assunto.
Para dar a uma questão como essa uma resposta precisa, seria necessário certamente horas e horas de explicações detalhadas, coisa de que não disponho com ela e nem aqui, mas há coisas importantes a serem ditas que, embora não se dê conta disso normalmente, acabam passando despercebidas.
Primeiramente, a questão das diferenças entre nomenclaturas. A psiquiatria, que é responsável pela questão da denominação, dispõe hoje em dia de dois manuais básicos : o CID-10 e o DSM-IV. O CID-10 é mais generalista, o DSM-IV mais específico.
Daí, chegamos a uma outra questão, que são as áreas de saber relacionadas à saúde mental, hoje mais ou menos dividida nos domínios da psicologia, da psiquiatria, da psicanálise e, paralelamente, por entre uma série de outras assim auto-denominadas “áreas de conhecimento”. Falemos das áreas psi, já que dos outros campos, eu não tenho lá nenhum domínio. A psiquiatria é uma área da medicina, destinada a cuidar da assim denominada “doença mental”. Por ser uma disciplina médica, pode dispor da farmacologia e, portanto, prescrever medicamentos. A psicologia, por outro lado, é uma formação científica, não ligada à medicina, que pode atuar em diversas áreas, entre elas a clínica. Não se dedica especificamente à doença mental e não pode dispor, como a psiquiatria, da farmacologia. Por fim, a psicanálise, que não pertence nem à medicina, nem à psicologia, muito embora possa ser adotada por profissionais de ambas as áreas. A formação em psicanálise compreende: a leitura e compreensão dos textos de Freud, a análise levada a termo e o acompanhamento de um profissional veterano, naquilo que se chama de supervisão.
Mas, além da problemática do conhecimento, que normalmente já é uma tremenda barreira para todos aqueles que se deparam com o sofrimento, há também o fator cultural, certamente responsável pelo enorme rombo que se pode encontrar hoje na questão da saúde mental do brasileiro que, em geral, prefere buscar suas soluções bem longe dos consultórios, seja nas já mencionadas “outras áreas”, seja na própria rede cotidiana de onde se originou seu tormento.
p.s.: para quem quiser ler mais a respeito, recomendo "História da Loucura", de Michel Foucault, uma excelente obra para se entender o diálogo entre a razão e a loucura.
Escrito por Giu às 19h50
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Escapada

Esse é mais um daqueles momentos em que a dúvida paira no ar. A idéia para esse texto já está na cabeça há uns bons dias, mas o tempo curto e a urgência de tratar de outros assuntos sempre acabavam adiando sua exploração.
Aí que hoje os e-mails estão respondidos, os recados deixados no Orkut não são dignos de nota, tampouco as respostas aos tópicos das comunidades mais freqüentadas, tendo portanto eu que me dirigir de volta a idéia que já era para ter virado post há algum tempo.
Entretanto, a razão para tanta hesitação é uma certa desconfiança das maneiras que se podem ler as próximas linhas, justamente por se tratar de um tema bastante recorrente, tanto nesse blog quanto em quase todos os meios de comunicação.
Tudo começou com uma troca de e-mails muito interessante entre eu e uma cliente-amiga. Assunto vai, assunto vem, caímos naquele velho problema do que se precisa para ser feliz e, como reza a sabedoria popular, costuma-se dizer que é realmente de muito pouco.
Daí que, num repentino jogo de palavras da minha cabeça, eu disse a ela que, na verdade não seria muito pouco, mas sim um “pouco-muito”, o que, apesar de parecer quase a mesma coisa, é exatamente o contrário.
Afinal, não é à toa que, em se tratando do assunto, a coisa continua a ser um enorme mistério e explica porque, enquanto o dia de alguns foi simplesmente insuportável, o de outros foi uma verdadeira maravilha, e assim indefinidamente.
E, por mais que se queira, esse “pouco-muito” não é lá coisa fácil de se ter quando se bem quer, até porque, em geral, não se sabe o que ele é até que surja.
Daí em diante, já se sabe, com quase toda certeza, que esse momento irá ficar marcado como a causa da felicidade, quando na verdade ele foi a felicidade – ele jamais será igual, mesmo que se o repita um milhão de vezes ( a tendência, inclusive, é que se torne cada vez mais desagradável a cada repetição ). A conta é simples e não precisa ser nenhum gênio para entender que se irá tentar encontrar novamente esse pouco-muito, mas o que se terá em mãos, geralmente, será um muito que sempre será pouco.
Vários séculos de filosofia ocidental e outros mais de oriental tentam até hoje dar conta disso e não serei eu aquele que irá dizer que é coisa pouca e que a solução está em nossas mãos.
Mas talvez seja um bom motivo para impulsionar a existência. A minha, pelo menos...
Escrito por Giu às 22h37
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SALVAÇÃO

E o papa passou por essas plagas. Sucesso absoluto de público e crítica, Bento XVI, o Sumo Pontífice da Igreja Católica agradou a todos por onde passou. quebrou protocolos, se misturou com a plebe, fez declarações importantes para os principais jornais e deixou uma impressão agradável, ao contrário do que muitos esperavam.
Entretanto, como sempre acontece, as críticas também aparecem, aqui e ali. A mais comum e, por isso mesmo, de maior relevância, é a de que o papa, por sua orientação mais conservadora, diminui as possibilidades de uma retomada católica por aqui, ao passo que, a cada ano que passa, as igrejas evangélicas ampliam mais e mais o tamanho de seu séquito.
De certa forma, apesar de tudo parecer indicar o contrário, é preciso dar ao homem um quê de razão. Não convém discutir aqui, ponto por ponto, todas as então chamadas arbitrariedades do catolicismo mas, entre as de maior destaque, ficam a proibição do uso da camisinha(e demais métodos contraceptivos não-naturais) como preservativo e a condenação do casamento entre homossexuais. Como argumento para atacar a decisão de manter esses tabus, a opinião pública argumenta que tais medidas são totalmente contrárias à demanda da grande massa. A proibição da camisinha, dizem, é absurda por ignorar que seu uso impede a disseminação de várias doenças, dentre as quais a temível síndrome de imunodeficiência adquirida. Já o casamento entre homossexuais é defendido com veemência, pois é justamente a coroação do sentimento tido como mais importante para a humanidade, e não só pelo catolicismo: o amor entre duas pessoas. Pois bem, tudo isso é muito válido no terreno da discussão ideológica, onde cada um tem todo o direito de achar que a sua opinião é a correta, ainda mais quando uma maioria parece ser justamente mais beneficiada por ela.
No entanto, é preciso lembrar que uma religião, ao contrário de um regime político, não é feita para seguir a vontade de seus seguidores. Ao contrário, a religião se estabelece justamente por uma série de dogmas, princípios e leis inalienáveis, justamente para que possa conduzir seus seguidores para o caminho da iluminação de cada um. Ao contrário da política, onde a vontade de uma maioria normalmente conduz a uma lei, na religião é justamente uma lei, que já está dada, a condutora daqueles que por ela caminham. O grande problema parece ser justamente essa vontade popular de subverter as regras do jogo, o que parece mesmo explicar o grande crescimento das pentecostais e outros cultos: a necessidade de se acreditar em uma força maior que mova o mundo passa por cima da recusa em se dobrar a valores falidos.
Diz uma amiga minha que não crê em Deus, mas teme o castigo. O final do século XIX foi marcado por filósofos e cientistas que previram e anunciaram o fim da religiosidade como certo para o próximo século. De certa forma, é preciso concordar com eles, afinal, a idéia de religiosidade, como existia até então, realmente acabou. Resta, entretanto, descobrir o que fazer com o que ficou, pois as religiões continuam aí, e a julgar pelo que se vê, não devem desaparecer tão cedo.
Escrito por Giu às 22h22
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Vazão

Terça-feira, dia do Trabalho, feriado nacional. Como de costume, estamos eu e alguns colegas na loja em que trabalhamos, exercendo nosso ofício. Claro, dia do trabalho, vamos trabalhar. O tempo passando, as pessoas passando, corredor lotado e, de repente, a comoção. Pessoas vão se aglomerando, os seguranças aparecem correndo, e a cena que se apresenta não é das mais bonitas. Duas mulheres, uma delas com uma criança no colo e outra segurando-a pela mão, trocam desaforos e ameaças aos berros, parecendo a todo instante que vão realmente chegar às vias de fato, o que só não acontece graças à ação dos seguranças. Depois ainda fico sabendo que o marido de uma delas já havia agredido um outro. A conclusão da história, ao que parece, se deu na delegacia.
Cena pouco comum em ambientes como esse shopping center, apesar de não ser inédita, e, no entanto, cada vez mais tingida com vernizes de normalidade pelos veículos de mídia de massa e, portanto, cada vez mais aceitáveis pelo grande público. Nada para se estranhar. Dia desses, comentei com uma amiga a respeito da lei de defesa para o menor, recentemente aprovada, pela qual o espancamento de uma criança, mesmo que pelos pais, torna-se crime, passível de pena de prisão. Para minha surpresa, a amiga se mostrou indignada, pois “como pode alguém querer dizer que ela não poderia bater no próprio filho”, filho esse que, por sinal, ainda nem existe. Não achei outra saída senão dar boas risadas, tamanho o absurdo da situação.
Para fechar com chave de ouro, uma pérola de outro personagem, habitué desses corredores por onde se passam tantas histórias sem pé nem cabeça: “crianças são como bichinhos de estimação, é preciso adestrá-las desde pequenas. avisa que se não obedecer, apanha, e se não obedecer, tem que bater mesmo, pra aprender”. Mais uma vez, tive que rir. Aliás, o riso tem sido um companheiro constante, uma vez que a razão, mesmo de maneira discreta, há tempos reluta em aparecer.
Escrito por Giu às 21h14
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...no comércio
Graciliano Ramos que, como eu, também era comerciário.
Semana passada, o Sindicato dos Comerciários de São José dos Campos fez circular pelas lojas do Center Vale, por meio de comunicado interno do próprio Shopping, alguns parágrafos que determinam as regras de funcionamento das lojas nos dias de feriado nacional, estadual ou municipal, imagino eu, devido ao feriado de Tiradentes, datado justamente num sábado, esse último, dia de grande movimento nos corredores dos shoppings, calçadões e para o comércio, em geral.
Dentre as resoluções, constava da circular o aviso de pagamento indenizatório obrigatório, no valor de R$ 25,00, além de jornada reduzida, hora extra obrigatória e alguns outros benefícios mais.
Para todos foi uma enorme surpresa, visto que, dentre todas as classes de trabalhadores sindicalizados, a dos comerciários é, desde que me tomo como tal, uma das menos favorecidas. Nenhum proprietário de loja faz segredo disso e tampouco é vergonha nenhuma para a classe admitir que, em geral, os comerciários trabalham muito em troca de pouco. As desculpas para tanto são inúmeras: a profissão não exige formação nem experiência; o pagamento é normalmente feito por fora – na folha consta um salário, mas além do salário há também a comissão sobre as vendas; a rotatividade nos quadros é muito grande; enfim, tudo pode ser usado como argumento para se explorar uma mão-de-obra que se dispõe a isso.
Quão maior não foi a surpresa ao constatar-se que, mesmo obrigados pela lei, muitos dos empregadores simplesmente se recusaram a pagar a indenização, muitos deles afirmando, sem o menor pudor, que o funcionário que quisesse receber a quantia poderia se retirar permanentemente.
Não deixa de ser engraçado notar que, em geral, os que assumiram essa postura, são aqueles que mais necessitam de sua equipe de atendimento, justamente os mais explorados e menos beneficiados.
Escrito por Giu às 22h24
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cicatrizes

Algumas feridas só fecham com o tempo. Elas nunca deixam de doer...
Escrito por Giu às 21h29
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diferença

Ontém recebi um e-mail de uma amiga, me comunicando sua decisão de começar a publicar um blog dedicado à literatura.
Não sei por que, mas esse tipo de coisa sempre me anima. Talvez por eu mesmo ser um blogueiro (não muito ativo hoje em dia, é verdade), o que, de alguma maneira, faz com que eu sinta uma espécie de revitalização ao encontrar alguém mais próximo com o mesmo tipo de empenho.
Provavelmente o mesmo tipo de situação pela qual passa grande parte dos desajustados quando encontram-se por aí nas esquinas cada vez mais próximas desse nosso mundo cada vez menor. Pode até parecer meio démodê usar um termo como desajustado, ainda mais por esses dias em que todo tipo de tribo existe e, quando não existe, logo alguém se prontifica a criar um nome para esse tipo de gente que até então parecia não existir e que, de repente, começa a pipocar em tudo quanto é lugar.
Entretanto, quer queira, quer não, o desajuste, penso eu, é uma tendência humana por excelência, bem como o olhar “reajustador” da sociedade, que sempre irá cismar com esses tipinhos estranhos que teimam em ser diferentes.
Porque, como bem se sabe, o que nos constitui humanos é a palavra e, embora todos tenham acesso a ela, sempre o será em diferentes graus, de diferentes maneiras e, principalmente, por diferentes caminhos.
E, embora sejamos sempre diferentes, nada nos conforta mais do que um encontro com aquele que nos reflete a mesma diferença que tanto nos marca.
p.s.: a partir de hoje, o link para “Diálogos e Intertextos” fica exposto ali na lateral do blog, junto com os outros links de interesse. Que tenha vida longa.
Escrito por Giu às 21h36
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o retorno
Depois de uma longa ausência, resolvi retornar para comentar alguns assuntos relevantes que se passaram durante o descanso. Vamos a eles:
- política: realmente não sei como classificar uma cena como essa em que Lula abraça o presidente norte-americano George W. Bush, este uma expressão de visível constrangimento, aquele com aquela típica cara de cachorro sem dono que conquistou boa parte do eleitorado brasileiro. No mais, toda essa conversa sobre aumentar a idade para a maioridade penal é típica do Congresso falido que foi eleito e, portanto, bem a cara do eleitor;
- cinema: e Martin Scorsese finalmente abocanhou o Oscar. Salve!!! Babel é um filmaço, vi e recomendo. Ainda falta assistir A Conquista da honra, Cartas de Iwo Jima e todos os demais indicados. Confesso que a safra desse ano me deixou bastante animado, com excessão de Dreamgirls, claro. Também assisti, em DVD, Obrigado por Fumar, Eu Você e Todos os Outros, Medo e Obsessão e, mais recentemente, O Diabo veste Prada. Recomendo todos eles, especialmente Obrigado e O Diabo, divertidíssimos e extremamente educativos, no bom sentido, se é que há bom sentido para essa palavra;
- música: Arcade Fire, Bloc Party, Clap Your Hands Say Yeah, Maximo Park. Todos eles chegam bem ao segundo disco, a despeito da crítica especializada que anda meio que falando mal. A música nova do Maximo Park me deixou até com vontade de escutar o primeiro deles de novo, embora seja sempre aquela coisa "para alguns momentos, especialmente de bom humor". The Klaxons é realmente uma puta banda, não tem uma música deles que eu não goste, mas ainda não consegui engolir direito esses The View e The Automatic. Em compensação, dia desses vi o Hot Chip no programa do Jools Holland e foi uma total decepção. A performance ao vivo fica a milhas e milhas de distância em qualidade e carisma em relação ao disco, que te ganha na primeira audição. A batida é fraca, os outros instrumentos ficam bem chochos e os vocais, que soam super bem em disco, ao vivo vacilam feio. Foi bom, assim não preciso me empolgar muito caso eles venham ao Brasil.
Escrito por Giu às 12h22
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time's up

o dani morreu.
daniel trampava na colcci, uma bicha da melhor qualidade, gente finíssima, vendedor das antigas, do tipo que arrebenta nas vendas, ficava em primeiro lugar todo mês, geralmente com o dobro do que o segundo vendeu.
feriado em sampa, a bicha vai pruma rave em santos/guarujá/algum lugar no litoral sul, e morre afogado na praia. justo ele, que morria de medo de entrar na água, não sabia nem nadar.
coisa estranha, bizarra mesmo, já que o dani era cheio de vida, do tipo que faz todo mundo rir e tals.
enquanto isso, desse lado da fronteira, eu passo na padaria pra bater um rango, afinal saco vazio não pára em pé, e é curioso. do meu lado, dois tiozinhos chapados reclamando da depravação do mundo, do casal trepando na tela da tv, da menina de quinze anos com o namoradinho de 17 comprando a garrafa de 51 porque a de vodca era muito cara, e o bafo de cachaça vindo na minha nuca.
daí vou pagar, uma fila kilométrica e uma amiga descontrolada; por quê, eu nem fiquei sabendo. reclamava de tudo e eu, que ainda ia pegar aquela fila gigante, sem entender nada. os dias, às vezes, passam muito devagar, eu acho, e isso deve causar alguma estranha mudança no humor das pessoas.
vai ver passou da hora. é, deve ser isso...
Escrito por Giu às 23h49
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PALHAÇADA

Até o presente momento estava quieto no meu canto a respeito de toda essa história de Cicareli, You Tube e processo por já saber a palhaçada que é o nosso sistema judiciário. Em qualquer país sério, um processo como esse seria totalmente descabido. Como hoje em dia anda difícil se pensar em um país sério, achei melhor deixar a água correr, afinal de contas, no fim é sempre uma questão de Vox Populli.
Mas não pude deixar de sentir uma ponta de indignação ao ler a nota publicada na Folha em resposta ao boicote à apresentadora e à emissora. "Embora revestidos de legitimidade, a maioria desses protestos no fundo compartilha dos mesmos desvalores que quer atacar, pois fomenta a censura a um canal de televisão."?!? Como assim, cáras-pálidas??? Vocês ficaram malucos ou será que tomam mesmo todos os leitores e espectadores como completos débeis mentais? Qualquer tipo de protesto não fomenta coisa alguma, senão a extinção daquilo pelo que se protesta, no caso, a ação movida contra o site. Usar esse tipo de manobra defensiva para tentar desvalorizar uma das poucas vias a que ainda se pode recorrer quando não se concorda com alguma medida que afeta grande parte da população interessada(ou seja, os usuários do site e expectadores da MTV), isso sim, é fomentar a censura.
Pois, acima de tudo, demonstra que a MTV, a despeito de qualquer linha de conduta pretensamente assumida, só está interessada em garantir o bem-estar de seus patrocinadores. Nada contra, afinal, vivemos em um país capitalista, é o que nos move. Mas colocar-se como defensora de pretensos ideais liberais e assumir uma postura reacionária não é só hipocrisia, é uma completa falta de senso, pois subestima a inteligência justamente daqueles a quem pretende atinigir, ou seja, seus telespectadores.
Escrito por Giu às 16h46
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ano novo

Já há algum tempo deixei de tomar resoluções de ano-novo. O costume, como a maioria dos demais, não fazia muito sentido para mim e parecia muito mais uma bobagem tremenda, inspirado pelo mesmo tipo de massificação de hábitos que, diariamente, leva tantas pessoas aos mais variados absurdos por uma simples “questão de costume”.
Assim, ao invés de simplesmente pensar sobre o que eu pretendo fazer no próximo ano, resolvi dedicar um pouco de tempo àquilo que me ocupou a cabeça durante esse ano e que, provavelmente, continuará ocupando no próximo:
- dinheiro: como bom (ou mau) filho da classe média, seria impossível negar que essa é uma das minhas principais, senão a principal, preocupações. É praticamente impossível negar a impressão de que nosso dinheiro vale cada vez menos, muito embora os entendidos no assunto digam o contrário ou, ao menos, tenham sérias divergências a esse respeito. Mas, como se não bastasse a preocupação que eu tenho que ter com o meu próprio bolso, eu ainda preciso me preocupar com o bolso alheio e vou tentar explicar porquê. Fica meio difícil entender o que faz com que um país como o que eu vivo, onde não ocorre um crescimento econômico há uns bons anos, possa se tornar um dos maiores mercados consumidores de bens de luxo e alto luxo do mundo. Isso só se explica de uma maneira: a divisão de renda não está desequilibrada. Ela está insana. A história contemporânea tem um bom exemplo de um país latino onde o mesmo se sucedia, ou seja, enquanto uns poucos se fartavam de maneira desmedida, o restante da população vivia às favas, e o resultado não foi nada bom. Aliás, nunca é.
- política: eu entendo pouco do assunto, o que, no meu caso, é até mesmo uma bênção. Se tivesse um entendimento um pouco mais aprofundado, é pouco provável que ainda suportasse morar aqui. Mas, mesmo com toda minha ignorância, é impossível negar que algumas coisas muito feias parecem estar prestes a acontecer. Que seja reeleito um presidente digno de ao menos um processo de impeachment já é coisa aberrante, mas, como se não bastasse, que se dê uma olhada na bancada de deputados federais. O que mais se pode esperar?
- violência: não é uma resposta à pergunta que encerra o tópico anterior, mas se torna praticamente impossível visualizar um quadro diferente diante de tudo que se tem. Os atentados cariocas parecem apontar um rumo nada agradável para a questão da distribuição de renda. Embora a maioria queira argumentar que a criminalidade não é, nunca foi nem nunca será uma saída viável para a penúria financeira e que, além disso, esses atentados, bem como os organizados pelo PCC em São Paulo no meio do ano que se passou, são fatos isolados provocados por facções criminosas altamente organizadas, não se pode negar que o fascínio que tais facções exercem sobre boa parte dos excluídos. Disso para o caos generalizado é um pulo.
-
- alienação: em meio a tudo isso, cabe ainda algo a se perguntar. O que fazer? Pois não é, antes de mais nada, a grande questão? Dia desses, ao folhear uma edição da Trip, me deparei com uma coluna que dizia o mais ou menos o seguinte: as pessoas estão ocupadas demais com suas vidas para poderem fazer passeatas. Numa outra revista, da qual não sei dizer o nome, pode até ser que seja da mesma, uma outra pessoa falava a respeito da alienação norte-americana, que se dizia descontente com o presidente Bush e mesmo assim o reelegeu. Lá, o fenômeno foi explicado de maneira bem simples: a vida do norte-americano é boa demais para que ele precise se preocupar com as urnas e com a vida política de seu país. Ok, e aqui, qual é a explicação? Alguém uma vez disse que o Brasil não é um país sério. Triste constatação, acredito cada vez mais nessa afirmativa.
Bem, a essa altura do campeonato, desejar feliz ano novo pode parecer até piada de mau-gosto, mas são esses os votos que eu gostaria de deixar por aqui. Não há grandes esperanças, mas talvez, até por isso, seja possível deixar as coisas melhores do que estão. Vamos em frente e que 2007 termine com perspectivas mais belas.
Escrito por Giu às 14h01
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tapas e beijos

Resposta enviada ao colunista Luís Caversan, da Folha On-Line, a respeito das colunas:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult513u260.shtml http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult513u261.shtml
Segue a resposta na íntegra:
Caro Luís,
um tema bastante complicado esse, o que lhe confere ainda mais mérito dada a maneira com que o tem tratado, já que normalmente o assunto costuma gerar opiniões bastante parciais.
Aqui por essas plagas, aconteceu um fato pitoresco recentemente. Uma mulher, ex-cliente da loja em que trabalho, planejou friamente o seqüestro e assassinato de um homem que conhecera pela internet. O motivo, segundo as investigações seria dinheiro.
Creio ser esse também um viés bastante interessante para abordar a temática homens X mulheres, já que, se de um lado, o homem costuma tratar sua contraparte feminina como um objeto de sua posse, a mulher, por sua vez, não raro, coloca-se à disposição de tal tratamento quando estabelece o já conhecido jogo do laço social X arranjo financeiro. Por trabalhar numa área em que tenho contato constante com o público, especialmente o feminino, é uma situação com a qual não me canso de me deparar: mulheres que conduzem suas relações com o sexo oposto basicamente pela satisfação financeira, chegando em muitas situações às raias da extorsão (para não dizer meretrício, já que a compensação pelos agrados conseguidos em geral se dá no nível sexual).
Aliás, creio que não seria de todo mau um estudo mais aprofundado das trocas simbólicas efetuadas desde sempre na relação homem X mulher, especialmente na história da civilização ocidental, para poder se discutir melhor o assunto. Uma boa enfiada de nariz em qualquer leitura sobre possibilita jogar por terra boa parte das ilusões que um espírito pretensamente romântico gosta de pregar por aí.
Por outro lado, não seria no verdadeiro romantismo, aquele movimento mais caracteristicamente alemão, Tempestade e Ímpeto, que se poderia encontrar as raízes de toda essa violência, irracionalidade, paixão, enfim? Ou por acaso não foi o pobre Werther que deu cabo da própria vida por não suportar a existência sem ser ao lado de sua amada? Isso para não se falar de Othelo e tantas outras personas que, ensandecidas pelo ciúme, levam a cabo sua impossibilidade.
Não que eu veja aí qualquer justificativa, entenda bem; o ponto ao qual me refiro é apenas de buscar algum entendimento sobre os acontecimentos. Antes de mais nada, creio que um endurecimento da Lei, que condene qualquer violência, física ou psicológica, de um ser humano contra outro, seria imprescindível, especialmente nos casos de violência física. Uma sociedade que se diz civilizada não pode tolerar determinados tipos de comportamento, muito embora seja possível perceber, em todos as suas camadas, independente de poder econômico ou grau de instrução, não apenas uma certa tolerância, como até mesmo um certo entusiasmo para com a retaliação física contra quem a alguém querido possa ter ofendido. É triste, mas visível.
Além disso, uma outra medida perfeitamente cabível, principalmente por parte da mídia dita séria, poderia perfeitamente ser a de fiscalizar a teledramaturgia nacional que, sob o disfarce de uma pretensa liberdade artística, a qual chega a ser injustificável, já que muito do que ali se vê passa bem longe do estatuto de arte, joga todos os dias na casa de milhões de pessoas espetáculos nada dignificantes de violência doméstica e conflitos amorosos resolvidos na base da pancadaria. Tomemos como exemplo aqui a perseguição norte-americana contra o cigarro, que resultou no quase que total banimento das telas de cinema hollywoodiano desse que foi, por tanto tempo, um ícone.
Muito ainda pode ser dito a respeito, e tenho certeza que não faltará oportunidade para tanto, principalmente em se tratando dessa necessidade, intrínseca ao ser humano, de matar seu semelhante, mas hoje fico por aqui.
Escrito por Giu às 21h26
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